Diagnóstico tardio no autismo: por que tantas pessoas descobrem apenas na vida adulta?

Existem diversos fatores que contribuem para o diagnóstico tardio. Um dos principais é a diversidade de manifestações do espectro.

Mirra Bernardo, Douglas Bernardo

2/18/20263 min read

Diagnóstico tardio no autismo: por que tantas pessoas descobrem apenas na vida adulta?

Durante muito tempo, o autismo foi compreendido de forma limitada e baseado em estereótipos. A imagem social construída ao longo do século XX estava associada, principalmente, a crianças com dificuldades marcantes de comunicação, comportamento muito rígido ou necessidades intensas de suporte. Esse modelo reducionista fez com que muitas pessoas crescessem sem acesso a uma avaliação adequada.

Hoje, cada vez mais adultos têm recebido o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA). Esse fenômeno não significa que o autismo esteja “aumentando”, mas sim que o conhecimento científico e social sobre o espectro tem evoluído, permitindo o reconhecimento de perfis antes invisibilizados.

Por que o diagnóstico pode não acontecer na infância?

Existem diversos fatores que contribuem para o diagnóstico tardio. Um dos principais é a diversidade de manifestações do espectro. Algumas pessoas apresentam bom desenvolvimento da linguagem, desempenho acadêmico satisfatório e capacidade de adaptação social aparente, o que pode mascarar dificuldades internas significativas.

Outro ponto importante é o camuflamento social, também chamado de masking. Trata-se de um conjunto de estratégias conscientes ou inconscientes utilizadas para imitar comportamentos socialmente esperados, evitando julgamentos, rejeição ou exclusão. Embora possa favorecer a adaptação em determinados contextos, o masking frequentemente gera exaustão emocional, ansiedade e sensação de inadequação.

Além disso, fatores culturais, falta de acesso a profissionais especializados e o desconhecimento sobre o autismo em meninas, mulheres e adultos contribuíram historicamente para o subdiagnóstico.

O impacto emocional do diagnóstico na vida adulta

Receber um diagnóstico de autismo na vida adulta pode ser uma experiência complexa. Para muitas pessoas, ele representa um momento de alívio — finalmente há uma explicação para dificuldades vividas ao longo de toda a vida. Sensações de “ser diferente”, de não pertencer ou de precisar se esforçar constantemente para compreender normas sociais passam a fazer sentido.

Ao mesmo tempo, pode surgir um processo de luto simbólico. Não pelo autismo em si, mas pela percepção de quantos desafios poderiam ter sido vividos de forma mais acolhida e compreendida. Esse momento costuma envolver ressignificação da própria história, revisão de memórias e reconstrução da identidade.

Diagnóstico tardio e reconstrução de trajetória

Quando compreendido de forma adequada, o diagnóstico pode se tornar uma ferramenta de autonomia. Ele permite que a pessoa reconheça seus limites, fortaleça suas potencialidades, busque apoios e construa estratégias mais saudáveis de funcionamento.

Muitas pessoas autistas adultas relatam que, após o diagnóstico, passam a desenvolver uma relação mais compassiva consigo mesmas. O que antes era interpretado como falha pessoal passa a ser entendido como diferença neurológica.

Essa mudança de perspectiva é essencial para o desenvolvimento do pertencimento, da autoestima e da qualidade de vida.

E para nós? Como foi?

Para nós, o diagnóstico tardio não foi apenas um rótulo clínico. Foi um ponto de virada. Ao compreender nossas formas de sentir, pensar e existir, conseguimos olhar para a infância com mais gentileza e para o futuro com mais consciência.

Foi desse processo de autoconhecimento que nasceu o desejo de transformar vivências em narrativa, ciência e acolhimento. Hoje, percebemos que muitas pessoas percorrem caminhos semelhantes, e que compartilhar essas histórias pode ser uma forma potente de reduzir o isolamento e ampliar o entendimento social sobre o autismo.

Caminhos para o futuro

O aumento do diagnóstico tardio também reflete um avanço importante: estamos aprendendo a olhar o autismo com mais nuance, menos julgamento e mais escuta.

Reconhecer o espectro em todas as suas formas é um passo essencial para a construção de uma sociedade verdadeiramente inclusiva, onde diferentes modos de ser não sejam apenas tolerados, mas respeitados e valorizados.

Referências

HULL, L. et al. “Putting on My Best Normal”: Social camouflaging in adults with autism spectrum conditions. Journal of Autism and Developmental Disorders, 2017.

LAI, M.-C.; LOMBARDO, M. V.; BARON-COHEN, S. Autism. The Lancet, 2014.

MILTON, D. On the ontological status of autism: the ‘double empathy problem’. Disability & Society, 2012.

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-5. 2013.